01/2019

A Confiança perdida é difícil de recuperar

Por Nuno Coelho

O J—A convidou Nuno Coelho (www.nunocoelho.net) para nos falar da Saboaria e Perfumaria Confiança em Braga, do processo de compra do edifício da fábrica pelo município em 2011 e do destino, ainda incerto, da sua ocupação na actualidade. Nuno Coelho é Designer de Comunicação e tem dedicado parte da sua investigação à história desta Fábrica. É autor da tese de doutoramento “O Design de Embalagem em Portugal no Século XX – Do Funcional ao Simbólico – O Estudo de Caso da Saboaria e Perfumaria Confiança” (Universidade de Coimbra, 2013); do livro “Uma História de Confiança” (Tinta-da-China, 2017); e das exposições “O Rosto da Confiança” (2016) e “Uma História de Confiança” (2017).

Ilustração, 1903
Ilustração, 1903

 

 

1. Introdução

 

No final do século XIX até meados do século XX, o tecido industrial existente em Braga concentrava-se a leste da cidade, na freguesia de São Victor, no eixo constituído pela Rua da Taxa e pela Rua Nova de Santa Cruz, no que se poderia designar como uma cintura industrial da cidade. Das fábricas que constituíram em tempos este tecido (entre elas a Social Bracarense, a Taxa, a Industrial e a Pachancho), mantém-se apenas hoje de pé o edifício da Saboaria e Perfumaria Confiança, fundada em 1894, único elemento arquitetónico existente em Braga que denota o processo da primeira fase de industrialização da cidade. No entanto, apesar deste edifício conter traços de uma arquitetura industrial portuguesa da qual restam hoje poucos exemplares no país, a sua integridade encontra-se em sério risco de desaparecer. Antes de explicar o presente processo que poderá provocar a perda irremediável do imóvel e do seu possível futuro usufruto público, para além da polémica por este gerada, convém traçar em linhas muito gerais o contexto histórico daquela que foi em tempos a maior e mais importante fábrica bracarense, assim como uma das mais icónicas indústrias portuguesas.

 

 

Edifício da fábrica em 1910
Edifício da fábrica em 1910

 

 

2. Contexto histórico da Saboaria e Perfumaria Confiança

 

Analisando o contexto histórico da época da sua fundação, nomeadamente o facto de Braga não constituir propriamente um pólo industrial, de não existir em Portugal uma indústria que apostasse no sector de produtos de higiene (excetuando o caso da Claus & Schweder no Porto), da sociedade bracarense ser predominantemente rural e da cidade sofrer influências de tradições ancestrais e de um clero marcadamente conservador, teremos de reconhecer a importância incontornável da Confiança no desenvolvimento da cidade de Braga. Muitas opiniões referem que a história desta fábrica facilmente se confunde com a história da cidade que a viu nascer.

 

À data da sua fundação, a Confiança era a segunda mais antiga saboaria e perfumaria não só no nosso país mas também em toda a Península Ibérica, tendo sido antecedida em sete anos pela já mencionada Claus & Schweder (atual Ach. Brito), mas, ao contrário da sua congénere rival que tinha sido fundada por dois cidadãos alemães, a Confiança foi fundada exclusivamente por dois portugueses e, mais especificamente, por bracarenses. Ficaram por explicar as razões exatas da escolha destes dois jovens (tinham então 21 e 26 anos de idade), membros da mesma família (eram cunhados) e sem qualquer experiência no sector terem enveredado pela produção, para além de sabão, de sabonetes e de perfumes numa época em que este tipo de produtos tinha ainda um preço proibitivo para a maioria das classes sociais.

 

Quando inicia a sua produção, em 1894, a Confiança é ainda um empreendimento relativamente modesto. Porém, os sucessivos investimentos e o sucesso comercial, verificados nos primeiros anos de laboração, trazem a necessidade de expansão do seu parque industrial. Na viragem da década de 10 para a de 20 do século XX projeta-se a construção de um novo edifício da fábrica à face da Rua Nova de Santa Cruz e que irá tomar o lugar de todos os prédios que a empresa possui naquele local. A solução encontrada passa, portanto, pela construção do edifício que hoje se conhece, adaptando e integrando os edifícios primitivos no novo. O projeto concretizado de ampliação da fábrica é da autoria do arquiteto José da Costa Villaça, cujo requerimento de construção dá entrada na Câmara Municipal de Braga em abril de 1921, tendo sido um dos seus primeiros projetos. Villaça era discípulo de Moura Coutinho, autor de inúmeros projetos em Braga incluindo o Theatro Circo construído em 1915.O projeto de Villaça previa um edifício cuja fachada seria construída virada a sul, num comprimento total de mais de 70 metros. O edifício seria ampliado igualmente a norte, no alinhamento da Rua do Pulo, rua esta que terá sido implementada sob o traçado da Via Romana XVII que ligava Bracara Augusta a Asturica Augusta (Astorga). Nas décadas seguintes, em consequência da expansão da fábrica para norte, esta rua acabará por ser absorvida pelo empreendimento.

 

A construção do novo edifício permitiu dotar a Confiança de uma série de serviços destinados aos seus funcionários. Para além de dependências relacionadas diretamente com a produção, o complexo industrial chegou a albergar uma série de serviços onde se incluía um consultório médico, uma cozinha, um refeitório, uma cantina, garagens e oficina, uma oficina tipográfica (para produção de rótulos e embalagens), uma carpintaria/serralharia (para produção de caixas para transporte de sabão), uma oficina de costura (para as fardas do operariado), uma creche para crianças até aos cinco anos de idade, uma mercearia, uma biblioteca, um salão de festas, uma sala de teatro equipada com máquina de projeção de cinema, um núcleo de futebol, um logradouro com esplanada e jardim com árvores e, inclusivamente, um pequeno campo de cultivo (conhecido como “bolsa”) com alguns animais de gado. Devido à existência destas infraestruturas e serviços, a Confiança é, sem dúvida, um bom exemplo de uma indústria vertical, entendendo-se por este termo a empresa que passa a integrar na sua organização serviços e processos que antes eram requisitados a fornecedores externos.

 

Miguel Bandeira, docente da Universidade do Minho e então dirigente da ASPA – Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural, referiu a mundividência da Confiança, num parecer de 15 de fevereiro de 2003 anexado ao pedido de classificação do complexo dirigido ao IPPAR – Instituto Português do Património Arquitectónico no ano seguinte, especificando que se tratava “do melhor dos já raros exemplos da afirmação da industrialização oitocentista na cidade de Braga (...) redobradamente valiosa por constituir o último reduto da cidade de Braga no domínio da arqueologia industrial” assumindo-se “como um marco do património cultural e da memória coletiva dos bracarenses”. Ainda segundo a sua opinião, a fábrica Confiança teria “um papel de relevo na identidade e na memória do proletariado da cidade de Braga (...) reunindo potencialidades para se constituir num equipamento cultural privilegiado da cidade, ou possa ser merecedor de uma intervenção susceptível de valorizar os testemunhos que incorpora”. Esta opinião foi reafirmada por ocasião da compra do imóvel pela Câmara anos mais tarde.

 

Para além desta mundividência, contribuiu para o sucesso e longevidade da Confiança (empresa que, aliás, permanece hoje ativa no mercado) a importância e o significado que os seus produtos desempenharam na sociedade e economia portuguesas, levando o nome de Braga a todos os cantos do país, às então colónias ultramarinas e até, embora em menor número, a países estrangeiros, designação geográfica que os rótulos e embalagens “orgulhosamente” ostentavam junto da sua marca, uma vez que todos os produtos eram identificados como sendo produzidos na “Confiança – Braga”. Desta forma, o nome da cidade foi inscrito dentro dos lares das pessoas, que consumiam os seus produtos, presentes nas mais diversas latitudes.

 

Depois de uma longa e bem sucedida história, marcada por uma época áurea que coincide com a do Estado Novo, a Confiança não conseguiu facilmente adaptar-se aos novos padrões de consumo impostos pelas marcas multinacionais e pelas grandes superfícies comerciais que invadiram Portugal nas décadas de 80 e de 90 do século XX. Na viragem do milénio, a empresa encontrava-se em franco declínio e reduzida a 23 trabalhadores, quando em tempos chegou a empregar mais de 150. Este panorama, que antevia um futuro pouco animador, ditou, em 2002, a tomada de uma medida como forma de garantir a sobrevivência da empresa – a então administração procedeu à passagem da sua produção para novas instalações, na zona industrial da Sobreposta (nos arredores de Braga), e à venda do seu imóvel histórico.

 

O “notável exemplar da arquitectura industrial do princípio do século [XX]”,segundo a opinião de José Lopes Cordeiro, docente da Universidade do Minhoespecializado em património industrial,“é um dos poucos edifícios sobreviventes da época que marcou o início da industrialização da cidade de Braga. Atualmente, excetuando pontuais exemplos nos arredores da cidade, todos os edifícios das fábricas que constituíram a história industrial da cidade foram demolidos durante a década de 80 [do século XX]”. Até 2005, data do definitivo abandono do seu edifício histórico construído em 1921, a Confiança era o último exemplar vivo de património industrial da cidade de Braga. Mesmo devoluto, o edifício permanece como o único exemplar que se mantém ainda de pé, embora sem qualquer manutenção há vários anos, representativo do processo de industrialização de Braga dos finais do século XIX e inícios do século XX.

 

Entretanto, a área envolvente da Confiança foi-se descaracterizando pela construção desenfreada de prédios de habitação e de grandes espaços comerciais, uma vez que os terrenos onde o complexoda antiga fábrica eram área de construção até ao Plano Diretor Municipal de Braga de 2015, passando então a estar qualificados como equipamento, tendo gerado especulação imobiliária pelo interesse económico que o imóvel e a sua área de implantação suscitam. Chegou-se a ter como dado adquirido a ideia, muito generalizada, de que a fábrica Confiança daria lugar a um condomínio fechado, cujo único pormenor que iria denotar a outrora existência naquele local de uma das maiores fábricas existentes em Braga seria, apenas, a manutenção da sua fachada. Para além disso, os terrenos a norte do edifício, outrora constituintes do complexo industrial da Saboaria e Perfumaria Confiança, foram sucessivamente alienados para a construção de um complexo comercial(que se tem mantido devoluto salvo um período curto em que funcionou como loja de produtos chineses). Atualmente, a área de terreno afeto ao complexo encontra-se reduzida a cercade 1/4 da sua área no momento de venda do imóvel em 2002 – de uma área total de 21 mil metros quadrados, o complexo encontra-se agora reduzido a seismil metros quadrados.

 

Nesta área, correspondente ao corpo principal e anexos, várias edificações existentes foram demolidas na última década sem que haja razões claras para o sucedido. É o caso da chaminé industrial em tijolo (de 25 metros de altura) e a emblemática torre (depósito de água) identificada com a palavra Confiança, dois marcos da paisagem urbana muito recordados pelos habitantes de Braga. O abandono, a falta de manutenção e, mais recentemente, a sua utilização como armazém e depósito de entulho do Município, provocaram a sua deterioração (embora não a nível da estrutura, como sustenta a dissertação de mestrado em Structural Analysis of Monuments and Historical Constructions intitulada “Industrial heritage in Northern Portugal. The example of Fábrica Confiança" defendida por Mafalda Isabel Mendes Guimarães na Universidade do Minho). Para isso também contribuíram os sucessivos incêndios que deflagraram no edifício devoluto.

 

Depois de dez anos nas mãos de uma sociedade imobiliária bracarense, à mercê de especulações imobiliárias, o complexofoi finalmente adquirido em 2012 pela Câmara Municipal de Braga através de um processo de expropriação por utilidade pública com o propósito expresso de ser reabilitado para fins culturais e sociais e no âmbito de um consenso alargado entre partidos e sociedade civil. Parecia que, finalmente, o poder político respondiaà vontade dos cidadãos da cidade, tanta vez manifestada em múltiplas ocasiões. No entanto, seisanos depois, a autarquia bracarense confirmouem 2018 a intenção de alienar o imóvel, colocando o usufruto público e a memória do seu espaço em severo risco. Antes de nos debruçarmos sobre a recente polémica gerada em torno da vontade de alienação docomplexoda fábrica Confiança por parte da autarquia bracarense, convém elencar uma série de atividades que denotam uma tradição da então administração da empresa em abrir as suas portas para a realização de atividades culturais, demonstrando que o edifício cultivou uma vocação cultural e artística ao longo da sua história.

 

 

Blueprint com fachada, 1921
Blueprint com fachada, 1921

 

 

3. A política cultural da Confiança

 

Por volta de 1955 a Confiança constrói dentro do seu complexo uma sala de teatro e de cinema equipada com projetor de película. Ficaram muito conhecidas ali as regulares festas de confraternização com todos os seus administradores, operários, colaboradores e respetivas famílias que incluíam atuações de teatro, de fado, de música ligeira e de magia. Nesta sala eram também organizadas sessões de cinema semanais abertas a residentes dos bairros vizinhos. Por esta altura, a Confiança tinha patrocinado programas de rádio em três grandes emissoras (Rádio Renascença, Rádio Clube Português e Portuense Rádio Clube) que contaram com a colaboração de várias vedetas da música, do cinema e do teatro. A complementar a política cultural conduzida pela então administração da empresa, é de realçar a existência nas suas instalações de uma biblioteca com sistema de requisição de livros para a comunidade da Confiança.

 

Perto do final do século XX, por iniciativa de Rui Prata, então diretor do Museu da Imagem, em Braga, e então diretor dos festival Encontros de Imagem, o edifício da Confiança, ainda em atividade, serve como local de apresentação de exposições em 1999, 2000 e 2002. “Memórias da Cidade”, um dos módulos dos Encontros da Imagem que tinha sido iniciado de forma consistente em 1998, pretendia refletir sobre o ambiente social e urbano da cidade de Braga, caracterizando-se por uma política de encomendas fotográficas a reconhecidos fotógrafos nacionais e estrangeiros. As instalações da fábrica Confiança serviram como local de apresentação das exposições deste ciclo nos referidos anos. É disso exemplo a exposição encomendada ao fotógrafo Mariano Piçarra, que se debruçou sobre o fragmento industrial, curiosamente selecionando a Confiança como objeto na mira da sua câmara. Pelo olhar do fotógrafo, fotografias da Saboaria e Perfumaria Confiança em plena laboração estiveram patentes no seu próprio espaço. Este facto curioso tomou uma outra dimensão pelo facto das exposições poderem ter sido visitadas em horário de expediente, ou seja, quando a fábrica se encontrava também ela em atividade.

 

Para além de exposições, o edifício foi também palco de outros eventos culturais. Em maio de 1994 recebeu a encenação da peça “Woyzek” pelo Teatro Universitário do Minho; em 2000 o recital “Caridade” pelo Sindicato de Poesia no âmbito do ciclo “Pecados & Virtudes”; foi local de estreia de duas companhias de teatro, nomeadamente do PIF’h – Produções Independentes Fora de Horas, em 2000, com “Talvez de Amor Vos Fale, ou de Morte” e de O Cão Danado, em 2002, com “Psicosys”. Além disso, houve concertos, como a banda francesa de percussionismo Les Tambours du Bronx, em 1997; exposições do Governo Civil; e ainda foi cenário de filmagens.

 

Por volta de 2001, Rui Prata lançou a ideia de se criar um espaço dedicado à arte contemporânea nas antigas instalações da fábrica Confiança. Braga carecia (e ainda carece) de um espaço amplo que pudesse receber exposições de média e grande escala, assim como de espaços culturais polivalentes, facto que o recém criado espaço GNRation, inaugurado em março de 2013 no âmbito da Braga 2012 – Capital Europeia da Juventude, não veio colmatar. As instalações da fábrica Confiança pareciam ser o local ideal, na opinião de Rui Prata, para a criação de um centro cultural devido ao seu espaço amplo e polivalente.

 

A ideia ganhou novo impulso pouco tempo depois, em 2003, através de diversos artigos nos jornais e de um estudo desenvolvido pelo ProjetoBragaTempo, entretanto descontinuado, coordenado por Luís Tarroso Gomes, advogado e coordenador da cooperativa cultural Velha-a-Branca. O estudo tinha tido como inspiração o Centro Cultural e de Congressos de Aveiro,o Fórum Cultural de Ermesinde, as fábricas de lanifícios da Covilhã, entre outros, que funcionam precisamente em antigos espaços industriais. Entre as várias ideias apresentadas em sessão pública, apoiadas num pré-estudo arquitetónico de reconversão cultural do complexo, sugeria-se a recriação de funcionalidade originais, nomeadamente um auditório na antiga sala de cinema do complexoindustrial, mas tambémuma biblioteca, oficinas de artes, salas de exposições e uma videoteca municipal. Avançou-se igualmente com a possibilidade de certas estruturas ligadas à Universidade do Minho, localizada nas imediações do complexo da Confiança, pudessem ocupar espaços na antiga fábrica, como é o caso da RUM – Rádio Universitária do Minho.

 

No mesmo sentido, o IPPAR – Instituto Português do Património Arquitectónico (atual IGESPAR – Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico) chegou a propor à Câmara Municipal de Braga, em abril de 2004, na sequência do pedido de classificação do complexo pelo ProjetoBragaTempo, que avançasse com o processo de classificação da fábrica Confiança como imóvel de interesse municipal. Porém, esta iniciativa, assim como todas as outras anteriormente mencionadas, não irá surtir efeitos.

 

Seis anos depois, uma iniciativa da sociedade civil exigia a compra da antiga fábrica pela autarquia através da um abaixo-assinado. A petição online “Salvemos o edifício da Fábrica Confiança”, lançada por José António Coimbra Barbosa, professor e bisneto de um dos fundadores da empresa, e coordenada pelo Grupo Arte e Cultura, sugeria a criação de um centro cultural na antiga fábrica Confiança de Braga, tendo conseguido assegurar um total de 1055 assinaturas, 840 da quais nas duas primeiras semanas.

 

 

Vista da fachada, 1922
Vista da fachada, 1922

 

 

4. O processo de compra da Confiança pela Câmara Municipal de Braga

 

Relativamente à reconversão do edifício da Confiança, a Câmara Municipal de Braga assumiu publicamente a intenção de criar valênciasculturaisnas antigas instalações da fábrica em 2011, quando este já se encontrava devoluto, tendo em vista a criação de um museu da fábrica, com especial destaque para o espólio da Saboaria e Perfumaria Confiança, assim como de uma série de outras infraestruturas, como serviços da Junta de Freguesia de São Victor, serviços de ligação à Universidade do Minho, a deslocação de alguns serviços camarários e a criação de um centro de exposições e auditórios, dotados de equipamento de projeção de cinema. Aideia da criação de um núcleo museológico da Confiança, pela então administração da empresa, era já uma intenção desde o período de mudança de instalações da Rua Nova de Santa Cruz para o parque industrial da Sobreposta, tendo inclusivamente chegado a acordo com a autarquia, dois anos antes,para o instalar na antiga estação de caminhos-de-ferro. No entanto, até hoje nenhuma destas ideias chegou a ser concretizada.

 

Em Novembro 2011, a Câmara Municipal de Braga começou a negociar a aquisição do complexoda fábrica Confiança. A compra da fábrica foi votada pela autarquia, então, lideradapor Mesquita Machado, a 24 de Novembro 2011, tendo sido aprovada por unanimidade num dos raros momentos de consenso alcançado por todos os partidos representados no executivo. A proposta de aquisição tinha sido apresentada e dinamizada pelos vereadores Ricardo Rio e Vítor Sousa (Rio era então líder da oposição e Sousa o então vice-presidente da Câmara Municipal de Braga) tendo sido o valor avançado na ordem dos 3,5 milhões de euros. A 25 de Novembro 2011, a Câmara Municipal de Braga deliberou a compra da edifício da fábrica Confiança, defendendo a aquisiçãopelo seu caráter único e pela valorização do património material e imaterial do Município, encetando negociações com a sociedade proprietária.

 

Um eventual futuro do imóvel começou a definir-se a 5 de janeiro 2012 com o lançamento de um concurso de ideias, uma iniciativa autárquica. O caderno de encargos do concurso previa prémios de 50 mil euros para as três melhores propostas a apresentar a partir desse mês. Aos concorrentes era pedido que respeitassem duas premissas essenciais: o projeto teria de ser autosustentável e deveria incluir um museu da fábrica Confiança. A concurso (cujo júri foi composto pelo vice-presidente da Câmara Municipal de Braga Vítor Sousa, pelos vereadores Ricardo Rio e arquiteto Hugo Pires, pela diretora do Museu D. Diogo de Sousa Isabel Silva e pelo administrador da Confiança José Fernandes) foram apresentadas 77 propostas, demonstrando o interesse que o imóvel e a sua memória suscitam junto dos cidadãos bracarenses. Os resultados foram divulgados através da realização de uma exposição no Museu D. Diogo de Sousa, em Braga, inaugurada a 1 de Agosto 2012, onde se encontravam para consulta todos os projetos submetidos. Relativamente ao processo de compra, e frustradas as negociações com a sociedade proprietária, após deliberação municipal de expropriação, é publicada em Diário da República, de 30 de outubro 2012, a Declaração de Utilidade Pública relativa ao complexo de edifícios que passam, assim, para o património do Município.

 

Posteriormente foram realizados dois debates públicos intitulados “Uma questão de Confiança” sobre o projeto de reabilitação da antiga saboaria e perfumaria organizados pela associação BragaMais. O primeiro teve lugar na Casa dos Coimbras a 16 de janeiro de 2013, tendo como oradores José Lopes Cordeiro, em representação da Universidade do Minho; Luís Tarroso Gomes, do ProjetoBragaTempo; Ricardo Rio, da coligação Juntos por Braga e candidato à Câmara Municipal de Braga nas eleições autárquicas de 2013; e Vítor Sousa, vice-presidente da Câmara e também ele candidato nas mesmas eleições. Na sua intervenção, Ricardo Rio anuncia cinco razões, que considerou óbvias, para a necessidade de compra da fábrica Confiança: a preservação da memória industrial; a salvaguarda do ativo da marca Confiança; a criação de espaços para alimentar as dinâmicas culturais na cidade e que respondam a lacunas identificadas; a ligação à Universidade; e o reordenamento urbano face à degradação que a zona envolvente sofreu. Rio frisa ainda que considera importante a abertura da autarquia à comunidade com vista à recolher contributos de diferentes entidades, deixando um legado para o futuro.

 

O segundo debate teve lugar no auditório do Mercado do Carandá a 6 de março 2013, tendo como oradores os três vencedores do concurso de ideias organizado pela autarquia; Carlos Neves, em representação da CCDR-N – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte; Miguel Bandeira, em representação da Universidade do Minho; e novamente Ricardo Rio e Vítor Sousa, já presentes no primeiro debate. A enorme afluência verificada em ambas ocasiões, demonstram uma vez mais que a “Fábrica Confiança Apaixona Bracarenses”, citando o título de primeira página do jornal Correio do Minho de 18 de janeiro 2013. Em ambas as ocasiões, encontravam-se disponíveis para consulta os 77 propostassubmetidas ao concurso de ideias.

 

Em outubro de 2014, por ocasião dos 120 anos da Confiança, coordenei com o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Braga uma dupla sessão comemorativa no edifício devoluto da sua antiga fábrica no âmbito das sessões “À Descoberta de Braga – Visitas guiadas ao património – Sessões sobre história local”. A 10 de outubro realizou-se uma apresentação em conferência da história da fábrica resultante da minha investigação de Doutoramento sobre a Confiança e, no dia seguinte, uma visita guiada ao edifício conduzida por mim e por antigos operários. Tinha sido a primeira vez em nove anos que o edifício era aberto novamente à cidade.

 

Um ano antes, as eleições autárquicas de 29 de setembro de 2013 vieram confirmar a vitória do líder da oposição Ricardo Rio. Durante o seu primeiro mandato, mediante a impossibilidade imediata de reconversão do edifício, realizam-se atividades no centro da cidade com vista a manter viva a memória da Confiança.Um primeiro momento materializou-se na produção da exposição “O Rosto da Confiança”comissariada por mim na galeria municipal Casa dos Crivos, de 5 a 30 de abril 2016, e na organização de duas tertúlias com atuais e antigos(as) operários(as) e descendentes das famílias fundadoras da fábrica no mesmo espaço, a 21 e 28 de abril 2016. Na exposição, para além de uma extensa coleção de rótulos históricos de produtos Confiança, foram apresentadas inúmeras fotografias de operários e operárias nas festas de Natal que anualmente tinham lugar na sala de teatro da fábrica. Um segundo momento materializou-se na produção da exposição “Uma História de Confiança” tambémcomissariada pormim (contando, para além de conteúdos históricos, com a apresentação de obras artísticas desenvolvidas por Mariano Piçarra, Paulo Catrica, Manuel Dordio e Luciana Fina) naCasa dos Crivos, de 22 de abril a 13 de maio de 2017, e na publicação do livro homónimo deminha autoriapelas edições Tinta-da-China, lançado a 12 de maio de 2017, que contou com o apoio, para além da Câmara Municipal de Braga, da Saboaria e Perfumaria Confiança (empresa entretanto adquirida em 2008 pela sua histórica rival Ach. Brito) e do projeto A Vida Portuguesa. Apesar destes investimentos da parte da autarquia em manter viva a memória da fábrica, estas atividades serão os últimos sinais positivos demonstrados por ela nesse sentido. Poucos meses depois, a mesma autarquia empreende por um caminho em total oposição ao que tinha vindo a desenhar.

 

 

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Vista da fachada, 1928
Oficina de acabamentos, 1928
Casa das máquinas, 1928
Bilhete Postal, 1930

 

 

5. O processo de alienação da Confiança pela Câmara Municipal de Braga e a polémica gerada

 

Apesar de todos os sinais que apontavam para uma intenção clara em manter o edifício na esfera pública e de que este se iria tornar num pólo cultural, Ricardo Rio (da coligação Juntos por Braga) inclui no seu programa eleitoral às eleições autárquicas de 1 de outubro de 2017 (eleições nas quais a coligação sai vencedora e Rio é reconduzido no cargo de presidente da autarquia) a “análise sobre o futuro da antiga Saboaria e Perfumaria Confiança, tomando uma decisão definitiva sobre as suas oportunidades de reabilitação ou a sua alienação com vista ao financiamento de outras iniciativas culturais e patrimoniais (mas sempre com a salvaguarda dos valores arquitetónicos e a criação de núcleo museológico da fábrica original)”.

 

Em setembro de 2018, a Câmara Municipal torna pública a intenção de alienar o edifício, não colocando a decisão de venda à consideração prévia do Conselho Estratégico para a Reabilitação Urbana, nem da Junta de Freguesia de São Victor, nem consultando a opinião pública, obliterando, por isso, a possibilidade de discussão pública da análise sobre o futuro do imóvel prometido no seu programa eleitoral. A proposta de venda, levada a reunião do executivo a 19 de setembro, acabou por ser aprovada por cinco vereadores, tendo quatro votado contra e tendo dois faltado à reunião. Um dos votos a favor foi o de Miguel Bandeira, vereador com os pelouros da Regeneração Urbana, Património, Relação com as Universidades, Urbanismo, Planeamento, Ordenamento e Mobilidade que, anos antes, quando dirigente da ASPA – Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural, defendia a preservação do imóvel (como anteriormente assinalado neste artigo). Outro voto a favor foi o de Firmino Marques, vice-presidente da Câmara, com os pelouros das Obras Municipais, Políticas Sociais, Polícia Municipal, Proteção Civil, Bombeiros Municipais e Cemitério que, anos antes, quando presidente da Junta de Freguesia de São Victor, defendia igualmente a preservação do imóvel, tendo afirmado que a Confiança era de todos os bracarenses.

 

Posteriormente, a proposta foi votadaa 4 de outubro em Assembleia Municipal após longa e acesa discussão que monopoliza toda a sessão, obrigando ao reagendamento dos restantes pontos da ordem de trabalhos. Os deputados da maioria aprovaram a venda da antiga fábrica, tendo sido contabilizados 44 votos a favor e 29 contra.Um dos votos contra, ao lado dos partidos da oposição, foi o de Ricardo Silva, presidente da Junta de Freguesia de São Victor, eleito pela coligação que governa a Câmara, mantendo a coerência com o seu programa político. A proposta aprovada prevê que a venda do complexo, comprado em 2011 por 3,5 milhões de euros pelo anterior executivo liderado por Mesquita Machado, tenha o preço base de licitação de 3,8 milhões de euros, ou seja, por apenas mais 300 mil euros do preço da aquisição.

 

Rio defendeu a alienação do imóvel devido à falta de fundos próprios para a sua reabilitação, assim como de fundos comunitários para o efeito, indicando que a reabilitação da fábrica não fora considerada elegível para financiamento da União Europeia. No entanto, desconhece-se qualquer projeto da parte da Câmara, condição essencial para a candidatura aos referidos fundos. Por sua vez, o caderno de encargos para a venda do imóvel apenas exige a salvaguarda das três principais fachadas voltadas à rua, o desenho e forma da sua cobertura e a sua volumetria, obliterando por completo a necessidade de preservação de qualquer estruturainterior e dos espaços de circulação imprescindíveis à preservação da memória histórica e arqueológica da fábrica. Para além disso, omite a referência da necessidade de estudo e preservação do tramo da Via XVII, a já referida via romana que muito provavelmente atravessa o complexo e que ainda hoje é visível no levantamento das plantas do complexo. O caderno de encargos previa ainda uma inusitada reconstituição da memória da chaminé industrial, demolida anos antes.

 

Perante a forma célere com que a autarquia pretende alienar o conjunto de seis mil metros quadrados a privados, surgem vozes e movimentos chamando a atenção para o risco de perda irreversível e a incoerência da atuação municipal, que alega que será criado um núcleo museológico de quinhentos metros quadrados. Apesar da falta de verbas para a reconversão da fábrica, alegadas por Rio, é por esta altura conhecido o empréstimo, contraído por parte da autarquia, no valor de 8,5 milhões de euros com um prazo de 16 anos e prestações trimestrais, do qual a maior fatia será absorvida pela requalificação do edifício privado do cineteatro São Geraldo, propriedade da arquidiocese de Braga e que a Câmara tomou de arrendamento por um período de dez anos. A autarquia optou por concretizar o mais caro dos quatro projectos, apresentados no mês de julho desse ano, para transformar o teatro devolutonum espaço dedicado às artes multimédia. Muitas opiniões defendem que a venda do complexoda Confiança, com uma base de licitação de 3,8 milhões de euros, terá um impacto relativamente muito reduzido nas contas municipais cujo orçamento anual é de 120 milhões de euros.

 

Por seu lado, a aquisiçãoda fábrica Confiança em 2012foi feita sem recurso a crédito tendo o pagamento sido efetuado na totalidade em inícios de 2013 pelo orçamento municipal, não constituindo assim qualquer encargo para os cofres da Câmara. Não havendo fundos disponíveis agora, e uma vez que as hipóteses não estão todas esgotadas, poderia facilmente esperar-se por um contexto mais favorável, nomeadamente pelo próximo quadro comunitário. Não se percebe verdadeiramente a vontade celeríssima em alienar um património pelo qual muito se lutou para que viesse a tornar-se público.

 

Pela contestação gerada pela intenção da Câmara Municipal de Braga em alienar o imóvel da fábrica Confiança, facilmente se pode constatar que existem várias entidades públicas e privadas em Braga empenhadas na sua salvaguarda e que, em conjunto, poderão iniciar um processo de recuperação do imóvel ao serviço de toda a comunidade. Convém referir que a fábrica situa-se em São Victor, a mais populosa freguesia de Braga (com 32 mil habitantes), onde não existe qualquer equipamento cultural municipal. Para além disso, situa-se numa localização estratégica, a meia distância entre o centro da cidade e a Universidade do Minho, perto também de um grande centro comercial e do hospital da cidade. De referir ainda que, presentemente, Braga é uma das 11 cidades portuguesas na corrida a Capital Europeia da Cultura em 2027, será Capital Cultural do Eixo Atlântico e ainda não dispõe de nenhum espaço capaz de receber uma exposição de grande dimensão.

 

Em defesa do imóvel, no início de outubro de 2018, um grupo de cidadãos bracarenses formou a Plataforma "Salvar a Fábrica Confiança” (salvarafabricaconfianca.org e facebook.com/emdefesadaconfianca) que integra 19 instituições e agentes culturais da cidade: Academia de Teatro Tin.Bra; Arte Total; ASPA – Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Natural e Cultural; Associação Bairro D’Alegria – O Bairro Somos Nós; Braga Mais; CEA – Cooperativa Ensino Artístico; CRL; Cidade Curiosa – Associação Cultural; Cineclube Aurélio da Paz dos Reis; Civitas – Associação para a Defesa e Promoção dos Direitos Humanos; Encontros da Imagem; Fotograma; JovemCoop – Associação Jovem Cooperante Natureza; Junta de Freguesia de São Victor; Krizo – Educação, Arte e Cidadania; Nova Comédia Bracarense; O Cão Danado e Companhia; PIF’H – Produções Ilimitadas Fora d’Horas; Projétil; e Velha-a-Branca – Estaleiro Cultural.

 

A Plataforma defende a manutenção do complexo da antiga fábrica na esfera pública e a sua progressiva adaptação a espaço com funções culturais e sociais, com menor ou maior participação do Município. Ainda segundo a Plataforma, a alienação representa um total desrespeito pelos Princípios de Dublin estabelecidos em 2011 em conjunto pelo ICOMOS – International Council on Monuments and Sites (associação ligada à UNESCO) e TICCIH – The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage, princípios estes que defendem uma nova utilização das instalações industriais como solução de conservação mais sustentável, respeitando os elementos significativos existentes. Segundo a Plataforma, o caderno de encargos apresentados pela autarquia para a alienação da fábrica desrespeita os referidos princípios pois não garante “intervenções reversíveis, de conservação, e as adaptações mínimas” para os edifícios industriais.

 

As primeiras medidas da Plataforma foram a realização de debates, a criação de uma petição e pedidos de reunião com a Câmara Municipal. No seguimento destas medidas, apresentouuma queixa à UNESCO alegando que a alienação da Confiança coloca em causa a candidatura que Braga formalizou com vista a ser Capital Europeia da Cultura a par da então prevista candidatura a Capital da Cultura do Eixo Atlântico. Defendendo que a fábrica é o único reduto industrial no concelho cuja arquitetura tem valor histórico, a Plataforma realça que a sua venda irá privar Braga de um equipamento cultural há muito almejado. Apesar de Braga ter cerca de 200 mil habitantes, os equipamentos culturais encontram-se todos localizados no centro histórico. A mesma queixafoi também dirigida ao Ministério da Cultura e ao Eixo Atlântico. Paralelamente, a Plataforma começou a recolher assinaturas através de uma petição contra a alienação da fábrica Confiança em vários pontos da cidade e via online, contando atualmente com mais de duas mil assinaturas (http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT90589). De referir aindaa visita da Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto efetuada às instalações da antiga Fábrica Confiança, a 10 de dezembro de 2018, por proposta do Bloco de Esquerda na Assembleia da República, tendo sido votada por unanimidade.

 

Entretanto, a 2 de outubro de 2018, a Câmara Municipal de Braga apresentou a candidatura das suas vias romanas a Itinerário Cultural Europeu, classificação da responsabilidade do Conselho da Europa. A candidatura foi colocada em causa pela Plataforma “Salvar a Fábrica Confiança” por entender que, no processo de alienação da Confiança, não se salvaguarda o traçado da via romana que atravessa o complexo industrial, tendo sido solicitado o devido acompanhamento do Instituto de Itinerários Culturais do Concelho da Europa. Na mesma data, à noite, movimentos da sociedade civil continuaram a mostrar o seu desagrado pelo processo de alienação. Cerca de cem pessoas manifestaram-se em frente da antiga fábrica sob o mesmo slogan da Plataforma, “Salvar a Fábrica Confiança”, num protesto que foi organizado pela oposição no Município. Entretanto, a venda do imóvel em hasta pública encontrava-se marcada para a manhã do dia 20 de novembro, no edifício GNRation, processo que foi travado por uma providência cautelar apresentada pela Plataforma e que foi aceite pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga uma semana antes. A 12 de dezembro, foi aberto um novo procedimento de classificação da Saboaria e Perfumaria Confiança, em resposta ao pedido da Plataforma submetido à Direção Geral do Património Cultural.

 

 

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Área de empacotamento, 1944
Fotografia de maquete, 1944
Vista aérea, 1955

 

 

6. O que fazer para se não perder a Confiança?

 

Apesar da existência de 77 propostas financeiramente autosustentáveis e que preveem a criação de um museu da fábrica, submetidas ao concurso de ideias promovido pela Câmara em janeiro de 2012 e do qual resultaram três propostas vencedoras, nenhuma destas ideias foi ponderada pela autarquia. Não será justo, portanto, afirmar que tanto a sociedade civil como a atual oposição política não tenham revelado propostas concretas para dar nova vida à antiga fábrica. Consultando as 77 propostas, podemos verificar inúmeras ideias de ocupação, nomeadamente um museu, um centro interpretativo, um centro de artes, um centro de ciência viva, a sede da Associação Académica da Universidade do Minho, uma residência para estudantes, um albergue de associações da cidade, um hostel, um pólo empresarial, entre muitas outras. O espaço amplo e generoso permite a coexistência de várias destas utilizações em simultâneo.

 

Talvez a principal razão que se poderia conduzir com vista à concretização de um programa passaria por se explicar como este processo poderia ser gerido e por intermédio de quem. Se se optar apenas por investimento público, o melhor seria esperar por um contexto mais favorável que permita a alocação de verbas próprias ou por futuro concurso a fundos comunitários. Para isso, é essencial a definição de um programa e de um projeto. Ideias não faltam, como é disso exemplo as referidas 77 propostas. Um outro cenário passaria pela autarquia endereçar um convite à iniciativa privada. Porém, o caderno de encargos (que não teria de passar necessariamente pela alienação) não assegura sequer que as valências a serem ali implementadas garantam o futuro usufruto público do edifício.

 

Sem irmos geograficamente muito longe, bastaria olhar para algumas cidades vizinhas para se constatarem bons exemplos de reaproveitamento de espaços pós-industriais. Na cidade de Guimarães existem várias estruturas que foram reutilizadas como medidas de preservação da memória industrial e de revitalização do tecido urbano e social, não só através da salvaguarda da sua componente arqueológica e arquitetónica industrial (que por si só é já uma componente fundamental de preservação da questão identitária na história das cidades), mas também como importante contributo para a criação de dinâmicas culturais e sociais. São disso exemplo a Fábrica ASA (polo empresarial, cultural e artístico), o CAAA – Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura (instituição cultural), a Zona de Couros (complexo multifuncional onde se encontra uma pousada, um centro de dia, um jardim-escola, dependências ligadas à Universidade do Minho, entre outras valências) e a Fábrica de Plásticos Pátria (atual Casa da Memória). Por sua vez, em Santo Tirso, de referir o processo de reconversão da Fábrica de Santo Thyrso emespaço interpretativo do sector da moda, uma questão identitária deste concelho historicamente ligado à indústria têxtil. Na cidade do Porto, espera-se que projeto de reconversão do antigo Matadouro em Campanhã transforme esta zona tradicionalmente esquecida da cidade numa nova centralidade da segunda maior cidade do país.

 

Dentro das nossas fronteiras, há muitos outros exemplos de iniciativas públicas ou privadas de reconversão de espaços pós-industriais em espaços culturais, em muitos casos por iniciativa camarária ou com impulso camarário. Os exemplos são muito diversificados, com áreas e valências distintas, com potencialidades variadas e de diferentes orçamentos para a reconversão como para a sua gestão. São disso exemplo o antigo complexo industrial da metalomecânica Cegonheira (futuro Campus do Ensino Profissional e Artístico) em Vila Nova de Famalicão; o antigo complexo de armazéns em Campanhã (atuais espaços Mira e Mira Fórum) no Porto; a antiga Fábrica de Cerâmica e Fundição das Devesas (futuro museu da cidade) em Vila Nova de Gaia; a antiga Fábrica de Conservas Brandão (atual Fórum de Arte e Cultura) em Espinho; a antiga Fábrica Oliva (atual Oliva Creative Factory) em São João da Madeira; a antiga fábrica de descasque de arroz (futuro Espaço de Memórias) em Estarreja; a antiga Garagem Justino (futuro centro cultural) em Oliveira de Azeméis; a antiga Fábrica Escola Irmãos Stephens (atual Museu do Vidro) na Marinha Grande; as antigas Real Fábrica de Panos e Real Fábrica Veiga (atuais núcleos do Museu de Lanifícios da Universidade da Beira Interior) na Covilhã; a antiga Fábrica Perienes (atual Museu do Trabalho Michel Giacometti) em Setúbal; a antiga Fábrica da Pólvora (atual complexo multifuncional) em Oeiras; a antiga Fábrica de Loiça Sacavém (atual Museu da Cerâmica) em Sacavém; as antigas Fábrica Braço de Prata e Manutenção Militar (atualmente integradas no Hub Criativo do Beato), a antiga Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense (atual LX Factory) e as antigas Carpintarias de São Lázaro (atual centro cultural) em Lisboa; a antiga fábrica Feu Hermanos (atual museu da cidade) em Portimão; entre outros. Muitos destes exemplos encontram-se operacionais, outros aguardando a execução dos respetivos projetos.

 

Noutras geografias além-fronteiras ensaiam-se inúmeras formas de ocupação de espaços pós-industriais, capazes de regenerar radicalmente tecidos urbanos e sociais. São disso exemplo o Matadero em Madrid; a Fabrica Moritz e a CaixaForum em Barcelona; a Tabakalera em San Sebastian; a La Alhóndiga em Bilbao; o Centquatre em Paris; assim como outros mais distantes em cidades como Berlim, Hamburgo, Dortmund, Zurique, Atenas ou Moscovo. Não só na Europa se assiste a esta nova forma de reutilização de espaços pós-industriais, havendo bons exemplos em países de outros continentes como Estados Unidos, México, Marrocos, China ou Japão. A lista seria virtualmente interminável.

 

Estes exemplos enumerados caraterizam-se por ser pululantes iniciativas culturais, científicas e académicas capazes de captar audiências para além dos limites do concelho onde se encontram implementados. São também bons exemplos de preservação da identidade e memória colectivas dos concelhos onde se inserem. Todos estes projetos envolveram, cada um na sua medida, a comunidade e os agentes culturais locais, assim como a comunidade científica e académica, que sustentaram o discurso que veio legitimar as decisões políticas que conduziram aos diferentes processos de revitalização. Por seu lado, a revitalização destes colossos industriais preveniu que se deixassem cicatrizes urbanas e sociais na consequência do fecho e do abandono destes equipamentos.

 

A política de ocupação destes espaços pode ser efetuada através de um programa delineado desde o início ou prevendo uma ocupação gradual, faseada em várias etapas, de acordo com as necessidades sentidas pelas entidades ou comunidades locais que para ali são convidadas. Numa passagem recente pelo Porto, Benjamin Seroussi, curador e gestor cultural da Casa do Povo (apesar deste projetonão se tratar de um reaproveitamento de um espaço pós-industrial), descreveu que a política de ocupação deste espaço é a de não deixar que as associações ali sediadas ocupem verdadeiramente a totalidade do espaço, podendo as associações inquilinasantever e perspetivar formas de ocupação do espaço deixado, propositadamente, parcialmente vazio – uma visão poética e democrática que convoca a possibilidade de um futuro.

 

Esta perspetiva que aponta para um futuro possível não se observa apenas a nível dasociedade civil. Em vez de deixar as propriedades vazias, a cidade de Paris está a desenvolver um processo de aprendizagem em que entrega temporariamente os espaços devolutos a grupos comunitários e a startups. O antigo hospital Saint-Vincent-de-Paul, no 14.º distrito, abriga atualmente um centro de empreendimentos sociais e comerciais, entre os quais escritórios de startups, cafés, lojas pop-up, campos de jogos, um parque de campismo urbano e um mercado, atraindo mil visitantes por dia, entre parisienses e turistas. Por sua vez, acomponente social passa por incluir um albergue para pessoas sem-abrigo. O dinamizador da ideia realça que a mundividência do espaço é evidenciada pela forma como pessoas bastante diferentes interagem no mesmo local, podem ali encontrar valências sociais e oportunidades de trabalho. Apesar do antigo hospital, temporariamente rebatizado por Les Grands Voisins (Os Grandes Vizinhos), ser propriedade privada, o investidor decidiu abrir o espaço a diferentes organizações sem cobrar renda.

 

O espaço aguarda a execução do projeto final de conversão em habitações privadas e sociais, lojas, instalações comerciais e públicas e espaços verdes. O Les Grands Voisins é um exemplo de um “meanwhile space” (“espaço entretanto”, numa tradução livre), ou seja, um espaço temporariamente sem uso, cedido por privados ou por instituições públicas a associações comunitárias locais, organizações artísticas, startups e instituições de caridade. Neste acesso da sociedade civil a espaços outrora fechados, são possibilitadas formas positivas de utilização de estruturas urbanas vazias, convocando a sociedade civil a antever formas colaborativas de transformação da paisagem das cidades, ensaiando novas formas de convivência e de interação nas cidades. A abertura de um edifício abandonado à comunidade local incentiva a interação entre os moradores das zonas envolventes, verificando-se uma redução na atividade antissocial.

 

Convém referir que a política de abertura da administração do antigo hospital não é puro altruísmo. O vandalismo e o squatting (ocupação ilegal) são mais prováveis se um edifício permanecer vazio por muito tempo. Nesta perspetiva, um benefício dos inquilinos temporários é a redução nos custos de segurança. Para além disso, a ligação que um “meanwhile space” proporciona pode ajudar a cimentar relações da comunidade envolvida antes do projeto final de reconversão avançar em definitivo. Para além disso, a organização de eventos regulares em espaços temporários permite obter uma análise transversal dos seus ocupantes temporários, recolhendo as suas opiniões sobre a ocupação do mesmo e indagar sobre possíveis utilizações futuras. Desta forma, reconhece-se, suaviza-se o processo de reconversão mas, essencialmente, retiram-se importantes contributos no terreno, mais realistas, do que poderá ser incluído no caderno de encargos do projeto de ocupação permanente a executar posteriormente. A ocupação temporária funciona, portanto, como tubo-de-ensaio e isso é benéfico para ambas as partes.

 

 

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Estado do exterior do edifício em 2016
Estado do exterior do edifício em 2016

 

7. Conclusão

 

De regresso à cidade de Braga, a reconversão da fábrica Confiança é uma oportunidade única não só de preservação da memória daquele espaço e da cidade onde se insere, mas também de regeneração da zona oriental da cidade, numa localização privilegiada no centro do eixo que liga o centro histórico e a Universidade do Minho. Pela sua escala e implementação estratégica, a Confiança pode servir como uma âncora de uma nova centralidade, promovendo a regeneração urbana e social de toda a área envolvente. Num contexto alargado, poderá ser uma oportunidade única deeliminar a barreira enorme que separa o centro da cidade esua zona oriental que é a avenida Padre Júlio Fragata (que na realidade é uma auto-estrada), transformando-a verdadeiramente numa avenida. A reconversão da fábrica Confiança será o factor dinamizador e estruturante desta nova centralidade, revitalizando Braga não só para os seus habitantes mas para todos os futuros visitantes da cidade. Poderemos ser “os bons vizinhos” da Confiança? Com mobilização social (provasnesse sentido não faltam) e vontade política, oxalá a 12 de outubro de 2019 possamos soprar 125 velas pela Confiança já no interior da sua antiga fábrica. ◊

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