07 / 2016

Arquitectura Re(a)presentada no trabalho de FG+SG

Por Fabrícia Valente
Aires Mateus: Instalação na Bienal de Veneza 2012, Arsenale, Itália
Aires Mateus: Instalação na Bienal de Veneza 2012, Arsenale, Itália

 

Falar de representação em Arquitectura pode conduzir-nos à leitura dos modelos institucionalizados que periodicamente expõem e debatem os diferentes contextos da disciplina, como são exemplo as grandes bienais internacionais, que dão lugar a espaços expositivos que também lançam a questão de como representar Arquitectura. Não havendo a possibilidade de ler a Arquitectura através da vivência dos espaços construídos é, de facto, a partir de documentos que conhecemos as suas obras. Assim, representação pode também remeter-nos às diferentes linguagens que ao longo do tempo serviram como suporte para apresentar a Arquitectura, como o desenho, a maqueta, a fotografia e o vídeo. Parece-me oportuno falar da plataforma criada por Fernando Guerra e Sérgio Guerra, um trabalho de diálogo entre a arquitectura e a fotografia, situando-a em ambas as leituras aqui apresentadas desta temática.

 

Álvaro Leite Siza: Casa Toló, Cerva Vila Real, Portugal
Álvaro Leite Siza: Casa Toló, Cerva Vila Real, Portugal
Álvaro Siza + Carlos Castanheira: Shihlien Chemical Industrial Park Office, Jiangsu, China
Álvaro Siza + Carlos Castanheira: Shihlien Chemical Industrial Park Office, Jiangsu, China

 

As fotografias de Arquitectura de Fernando Guerra são talvez o maior veículo actual de apresentação da Arquitectura Portuguesa em todo o mundo. Como grande embaixador da nossa Arquitectura temos a grande referência de Álvaro Siza Vieira, mas as imagens deste fotógrafo são o suporte gráfico que a re(a)presenta, através do trabalho deste arquitecto e de tantos outros de diferentes gerações. Por trás da lente está o olhar de quem vive na obsessão de apresentar em imagens as inúmeras possibilidades dos espaços edificados. Reportagens de dias que revelam os edifícios a partir dos seus muitos ângulos, de certeiros estudos dos fluxos das suas vivências, de tempos e luzes para os quais é de facto preciso saber olhar mas também saber esperar. Contrariando a ideia de que uma selecção de meia dúzia de fotografias consegue sintetizar um projecto, estes trabalhos são narrativas cinematográficas onde conseguimos viajar pelos edifícios e conhecer as pessoas que neles habitam, as diferentes exposições solares a que estão sujeitos, os pormenores construtivos que tenderíamos a pensar que só os desenhos nos revelariam. Esta postura no acto de fotografar Arquitectura, mais do que um modo de estar e representar tornou-se uma marca na comunicação e divulgação da própria Arquitectura. 

 

ARX Portugal: Casa na Malveira, Portugal
ARX Portugal: Casa na Malveira, Portugal
Paulo David: Centro das Artes Casa da Mudas, Calheta, Madeira, Portugal
Paulo David: Centro das Artes Casa da Mudas, Calheta, Madeira, Portugal

 

Hoje, não é o estúdio FG+SG que procura ateliers de Arquitectura para mostrar os seus trabalhos, mas são os irmãos Guerra que são contactados por inúmeros arquitectos portugueses e estrangeiros, encomendando-lhes uma reportagem fotográfica às suas obras. Sabe-se à partida que os projectos fotografados por Fernando Guerra são comunicados ao mundo e, desta forma, se é verdade que quase todos os grandes nomes da Arquitectura Portuguesa confiam os seus trabalhos a este fotógrafo, também o é que os mais novos anseiam por estas imagens para conseguirem que os seus trabalhos sejam divulgados em diferentes plataformas. As fotografias de Fernando Guerra são premiadas internacionalmente, (recentemente receberam as distinções Architizer Award winner in the Architecture + Photography category, 2016; Arcaid Images “Architectural Photographer of the year 2015” e Plataforma Arquitectura Photography Prize – project of the year 2015), são publicadas em revistas e livros de Arquitectura por todo o mundo mas são também apresentadas a todos a partir da plataforma online ultimasreportagens.com. Este site tornou-se como eles anunciavam: a mais completa biblioteca online de imagens da arquitectura contemporânea portuguesa. Dos nomes consagrados, aos que estão a dar os primeiros passos, são mostradas obras de Arquitectura ao detalhe. Do edifício mais aclamado ao centro comercial, o que se pretende neste espaço é divulgar os trabalhos no sentido de um dia a memória destes espaços estar o mais documentada possível, não colocando o fotógrafo no papel de crítico do que melhor ou pior se fez em Arquitectura, mas de quem soube registar diferentes momentos para que então, um dia, se possa fundamentar a crítica e a história. O ultimasreportagens.com, com mais de mil trabalhos em arquivo, ambiciona em breve alargar este número para o dobro e está na linha da frente na publicação dos novos projectos construídos, para todos e não apenas para a elite dos arquitectos. Esta plataforma de comunicação chega ao público em geral e é também o motor de busca para muitas outras plataformas de Arquitectura e periódicos em papel ou digitais que procuraram os trabalhos mais recentes. Se há dez anos era nesses periódicos que queríamos encontrar os novos projectos agora é quase garantido que os procuramos para encontrarmos uma perspectiva crítica às obras e aos nomes da disciplina e assumimos que Fernando Guerra está na vanguarda da divulgação através do site e até mesmo através da rede social instagram. São muitos os que seguem as suas viagens neste registo onde são mostrados em simultâneo imagens específicas de uma reportagem que está a ser feita no momento, com uma fotografia seleccionada de uma reportagem já publicada.

 

OTO Arquitectos: Sede do Parque natural do Fogo, Cabo Verde
OTO Arquitectos: Sede do Parque natural do Fogo, Cabo Verde

 

FG+SG assume este papel de mensageiro da arquitectura lidando com as questões da representação na fotografia no limbo entre o documento fidedigno do real, numa postura mais jornalística e o momento em que as imagens não se inibem em fazer de um edifício o cenário de representação mais artística. Nestas reportagens fotográficas há momentos captados da forma mais comum na fotografia de Arquitectura, com tripé e lentes que corrigem distorção mas há também a possibilidade de um olhar captado com o recurso a um drone ou a uma 35mm, tão pouco usada na Arquitectura. A fronteira entre obra e documento tem sido muito debatida nas artes plásticas e as fotografias de Fernando Guerra trazem este debate também à Arquitectura. Se muitas exposições e conferências de arquitectura se munem destas imagens como objectos de representação, elas são cada vez mais a génese de novas exposições e espaços de reflexão, como foi exemplo a recente exposição Álvaro Siza – desenhos ao jantar e como será uma grande exposição retrospectiva do trabalho de Fernando Guerra anunciada brevemente. Serão a representação da representação? ◊

 

 

Extrastudio (João Ferrão e João Costa Ribeiro): Casa na Ajuda, Lisboa, Portugal
Extrastudio (João Ferrão e João Costa Ribeiro): Casa na Ajuda, Lisboa, Portugal

Ivrea e Olivetti

Por João Rocha*

Quando Le Corbusier visitou a cidade de Ivrea em Itália pela segunda vez, em 1936, comentou que a avenida Guglielmo Jervis, via estruturante da cidade, era la strada più bella del mondo. O plano Director da autoria dos arquitectos Luigi Fini e Gino Pollini, acabara de ser publicado na revista Casabella, e Le Corbusier em contacto com Adriano Olivetti, não deixou de expressar o arrojo e visão do desenho e da arquitectura propostas para a nova cidade industrial Olivetti.

Eco-visionários

Por Paula Melâneo

Após Utopia/Distopia, o MAAT propõe uma segunda exposição-manifesto, Eco-Visionários: Arte, Arquitetura após o Antropoceno, para ver até 8 de Outubro.

Este projecto convoca mais de 35 autores de diferentes áreas, artistas e arquitectos a contribuir para a reflexão sobre o Antropoceno — expressão popularizada neste século para definir a possibilidade de uma nova época geológica, marcada pela acção humana no ambiente natural terrestre —, na contemporaneidade e no que se seguirá.

Contributo para a discussão pública do PNPOT

Por Tomás Reis

Na Discussão Pública do Programa Nacional de Políticas de Ordenamento do Território (PNPOT), procurei dar o meu contributo. Este programa, além de definir as principais linhas orientadoras do Ordenamento do Território em Portugal durante a próxima década, vai certamente influenciar o Plano Nacional de Investimentos e o próximo Quadro Comunitário de Apoio, Portugal 2030.

Mulheres arquitectas e arquitectura: e se trocássemos umas ideias sobre o assunto?

Por Patrícia Santos Pedrosa

Durante sete meses, de Setembro 2017 a Março 2018, a associação Mulheres na Arquitectura (MA), em conjunto com a Secção Regional Sul da Ordem dos Arquitectos, organizou o que esperamos que seja o primeiro ciclo, de vários, das Conversas Arquitectas: Modo(s) de (R)exitir. Como era afirmado no texto de apresentação, apesar de as mulheres, em 2017, representarem cerca de 44% de inscrições na Ordem dos Arquitectos não surgem, tanto para o público em geral como entre pares, com uma visibilidade equivalente. O objectivo primeiro do ciclo de…

Sobre Nadir.

Por João Cepeda

À margem do Tâmega plantado, um corpo branco estende-se à beira-rio, na cidade (outrora) romana de Chaves.

Ao longe, um volume de um único piso, em betão branco aparente, repousa subtilmente sobre um conjunto de lâminas que o erguem do chão, refugiando-se das águas que, de quando em vez, ousam inundar a zona ribeirinha.

Somos encaminhados por uma ligeira rampa em granito, à cota alta.

O percurso – que estabelece a transição entre o centro histórico e as margens do rio, enaltecendo-o – faz-se (quase) sempre de olhos postos…

Sobre “o Público”* no Espaço

Por Wim Cuyvers

Pretendemos, continuamente, justapor o espaço público ao espaço privado numa oposição simples: queremos afirmar que o espaço público é o oposto do espaço privado e, de forma decisiva, formular uma definição de espaço público, por um lado, e de espaço privado, por outro. Mas tanto o espaço público puro como o espaço privado puro não existem; não podemos sequer esperar poder imaginar, inventar ou projectar espaço privado ou público puros. O espaço público puro (e, de facto, o espaço…

O Devir-Forma da Matéria

By Susana Ventura

O livro Architectonica Percepta: Texts and Images 1989-2015, de Paulo Providência com fotografias de Alberto Plácido, foi publicado no final do ano de 2016 pela Park Books, uma editora Suíça dedicada a livros de arquitectura e áreas que lhe são próximas. Providência é arquitecto e Professor de arquitectura na Universidade de Coimbra, cuja obra está profundamente enraizada numa investigação persistente que ultrapassa a rígida nomenclatura da disciplina de arquitectura, procurando incorporar uma reflexão introspectiva a partir…

Street Art, Sweet Art.*

Por Pedro Bandeira

Há dois teóricos que reivindicam para si o mérito da atenção dedicada à relação entre a criatividade e a cidade — o primeiro é Charles Landry, o segundo é Richard Florida. Landry reclama ser o inventor do conceito Creative City uma epifania que teve no final da década de 80 e que, segundo o próprio, concentra-se “no modo como as cidades podem criar condições que permitam às pessoas e às organizações pensar, planear e agir com imaginação resolvendo problemas e desenvolvendo oportunidades”.…

A panificadora de Nadir Afonso

Por Catarina Ribeiro e Vitório Leite

“Aos olhos de um indivíduo, de uma família, ou até de uma dinastia, uma cidade, uma rua, uma casa, parecem inalteráveis, inacessíveis ao tempo, aos acidentes da vida humana, a tal ponto que se julga poder contrapor e opor a fragilidade da nossa condição à invulnerabilidade da pedra.”

Media, metodologia e arquitectura: MEDIATÉKHTON

Por Jorge Duarte de Sá

Os media refletem hoje uma dinâmica indiscutível em muitos campos das competências e das relações humanas, abrangendo aspectos sociais, económicos, culturais e mesmo espirituais, tornando-se assim “extensões” do próprio ser humano (McLuhan, 2008). A Arquitectura revela uma identidade e um pensamento na sua postura formal e temporal face à realidade; esteve desde sempre associada a um paralelismo entre estrutura e conceptualização, estética e extra estética, funcionalismo e ornamento. No entanto,…

Sobre o ensino da Arquitectura e o futuro profissional do Arquitecto

Por José Nuno Beirão

Num tempo em que cerca de quatro em cada mil habitantes em Portugal são arquitectos, para que serve um curso de Arquitectura?

Quais são os outputs profissionais possíveis (e alternativos às saídas convencionais) que o ensino da Arquitectura poderá promover?

Neste artigo argumenta-se que a formação do Arquitecto não serve essencialmente para a tradicional produção da Arquitectura, mas que possui a essência da formação necessária às profissões do futuro (aquelas…

Media & Arquitetura

Por Nelson Augusto

Acentuando a análise numa relação distópica, invoquemos os extremos para uma clara compreensão. A divulgação controlada da obra de Luis Barragán revela a importância desse compromisso. Arquitecto reconhecido pelo seu silêncio eclético tomou a decisão de controlar os moldes em que a projecção da sua obra deveria ser realizada. A delicadeza desta inquietação gerou um enorme interesse, muitas vezes fantasiado, tanto em torno do autor como da sua obra. Num outro espectro, Zaha Hadid encontrou…

Que vai ser de nós?

Por Rui Campos Matos

A grande novidade do incêndio que, este Verão, atingiu a Madeira, não foram os danos causados (em 2012 a devastação também foi grande) mas sim o facto de as chamas terem ameaçado o antigo Funchal de intramuros. Por algumas horas a baixa da cidade viu-se envolvida numa massa irrespirável de fumo que semeou o pânico entre a população.

Reportagem de Resposta Rápida sobre a Trienal de Arquitectura de Oslo

Por Inês Moreira

A Trienal de Arquitectura de Oslo (OAT) inaugurou no início de Setembro trazendo a Oslo uma comunidade internacionalmente mobilizada de profissionais, pensadores e académicos da arquitectura. Tendo vencido a open call curatorial, Luís Alexandre Casanovas Blanco, Ignacio G. Galán, Carlos Mínguez Carrasco, Alejandra Navarrete Llopis e Marina Otero Verzier reúnem na After Belonging Agency para analisar e expor o tema curatorial proposto: After Belonging – the objects, spaces and territories of the ways we stay in transit (Depois da Pertença – os objectos, espaços…

De La Ville à la Villa – Chandigarh Revisited

Por Marta Jecu

As pessoas podem sentar-se de uma forma bela também numa pedra...

Pó, condições climáticas, silêncio e som, ferrugem e ar são para Jonathan Hill ausências de matéria percepcionadas que, no entanto, se constituem fisicamente como arquitectura. No seu fascinante livro Immaterial Architecture representa este modelo de uma arquitectura que nasce do imaterial, contra a casa modernista que considera consistente, autónoma, sem desperdício. Transparência e luz, que personificam o modernismo, são para Hill uma camuflagem…

Uma Anatomia do Livro de Arquitectura

Por Inês Moreira

Uma Anatomia do Livro de Arquitectura é uma nova publicação de André Tavares que traz uma leitura aprofundada ao pensamento, práticas e labores por trás da publicação de livros de arquitectura, desde o período que antecede a invenção da prensa industrial e o efeito massivo da invenção de Johannes Gutenberg, à abordagem moderna à edição na área de arquitectura. Abordar o nascimento e vida da tradição disciplinar da produção de livros de arquitectura é obrigatoriamente…

XXL

Por Pedro Bandeira

Em 2004 fui convidado por Pedro Gadanho e Luís Tavares Pereira a participar na exposição Metaflux: duas gerações na arquitectura portuguesa recente – a representação oficial portuguesa na Bienal de Veneza. Confortavelmente à margem da “geração X” ou “geração Y”, integrei o grupo de artistas e arquitectos (Augusto Alves da Silva, Didier Fiuza Faustino, Nuno Cera + Diogo Seixas Lopes e Rui Toscano), concebendo uma instalação específica para o evento – o “Projecto Romântico”.

Reporting from the Eastern borders

Por Inês Moreira

Respondendo ao tema geral da Bienal de Veneza de Arquitectura – Reporting from the Front – um conjunto interessante de pavilhões de países do (novo) Leste Europeu explora, radicalmente, questões específicas das suas nacionalidades, arquitectura e território dando-lhes visibilidade e, talvez, resolução internacional, enquanto arriscam um novo entendimento e abordagem ao potencial de participação de pequenos países no gigante evento internacional que é Veneza.

Os Vizinhos

Por Alexandra Areia

A Europa – e os tremendos desafios que hoje enfrenta – é um tema que, mesmo indirectamente, está sempre subjacente a Neighbourhood: Where Alvaro meets Aldo, a representação oficial portuguesa na Bienal de Arquitectura de Veneza 2016, comissariada por Nuno Grande e Roberto Cresmacoli. A questão da Europa torna-se particularmente evidente em “Vizinhos”, a série de filmes documentais que acompanha a representação, realizada pela jornalista Cândida Pinto...

Arquivo. Arquitectura. Território.

Por Lucinda Fonseca Correia

Decorreram simultaneamente, em Lisboa, as exposições Arquitectura em Concurso: percurso crítico pela Modernidade portuguesa e Inquéritos ao Território: Paisagem e Povoamento. A primeira exposição lança uma grelha de análise diacrónica dos concursos do último século em Portugal, visível na evolução das temáticas propostas: representação, instituição, espaço público, cultura, património, paisagem, lazer,…

Redacção de Crónicas para o J—A

Crónicas é o espaço em que o J—A publica breves opiniões e reflexões críticas sobre temas actuais relacionados com a arquitectura a sua relação alargada com a sociedade. Seleccionaremos contributos entre as 500/800 palavras que podem ser ilustrados. Se pretender contribuir para esta secção, envie-nos uma breve proposta do tema a abordar para ja@ordemdosarquitectos.pt